
Gringos com álcool na Arábia Saudita requebram muito!
Como já falado antes, o consumo ou posse de álcool na Arábia Saudita é passível de pena até de morte, mas mesmo assim, não é impossível encontrar álcool.
Existe um grande negócio de contrabando de álcool que entra por Bahrein, ou pelos Emirados Arábes Únidos, dois países que fazem borda com a Arábia Saudita e onde é possível encontrar álcool legalmente. Os esquemas de entrada são os mais loucos que eu já ouvi falar. Enquanto estive morando em Riyadh, li no jornal local que os contrabandistas, que traziam além de álcool, drogas, pegaram os policiais de fronteira, deixaram eles nús, pegaram o carro deles, e largaram eles amarrados, sentandos com as nadegas no asfalto quente, de um dia que tinha feito apenas 46°c. Só isso.
É possível encontrar no mercado negro garrafas de Red Label por US$ 200, Black Label por US$ 400, Heineken por US$50, vinhos de US$ 100-US$500. Enfim, existe um comércio grande e de fácil acesso aos que não conseguem resistir e obedecer 100% do tempo às leis intensas do país, especialmente aos estrangeiros que moram nos compounds. Os contrabandistas até preferem não ter contato com os sauditas para não serem denunciados, já que a absoluta maioria deles seguem aos mandamentos religiosos do Islam em 100% de seu tempo, não importa com quem seja, não importa se seja amigo, colega de trabalho, o que for. Simplesmente não importa.
Mesmo assim, os desbravadores estrangeiros da Arábia Saudita não tem medo e investem na aquisição de álcool e até mesmo na fabricação caseira.
Sim, meus amigos, dentro do compound havia uma fábrica de álcool, que compravámos em garrafas de dois litros e misturávamos ora com suco de frutas ora com Coca-Cola ora com Fanta Laranja. Não, não era bom, mas a mistura deixava melhor e o resultado final que queríamos era garantido, ou seja, bêbados. Ou melhor, resultado final não, resultado do meio! Sim, porque o resultado final era no dia seguinte com uma ULTRA RESSACA, de dar vontade cortar a cabeça fora e de jurar a todos os deuses que você nunca mais vai beber na sua vida só para convencê-los a parar com essa ressaca.
Era demais! As festas eram muito engraçadas! Não havia distinção de sexo, nem idade, nem cor, religão, cultura, nada! Eram todos os estrangeiros ali, bebendo, se divertindo, dançando.
A música? Aquela coisa genérica de sempre, com DJ genérico, claro! Pop, Rock, Hip Hop, Reggae, Romântica, Samba e Funk Carioca! Onde que eu ia imaginar que ouviria funk carioca em plena Arábia Saudita? Pior do que essa, só ouvindo os portugueses cantando em pleno deserto do Sahara! Mas essa eu conto depois…
Cada garrafa de dois litros custava algo em torno de US$ 5,00, o refrigerante e o suco por US$ 2,00.

Daryl MacDonald, da África do Sul, colega de trabalho
A primeira festa foi a mais louca, eu ainda morava em hotel e o Darryl MacDonald e o Alan Carder, meus colegas de trabalho. O Alan me chamou para uma festa no condomínio, e eu fiquei meio desmotivado porque achei que ia ser uma coisa meia boca, só no suquinho e refrigerante, mas ele me revelou a grande surpresa: a festa tinha álcool e eu deveria estar lá às 21h.

Entrada do hotel Radisson SAS Riyadh
Liguei para o motorista da empresa (que era do Paquistão) e ele me pegou no Radisson SAS Hotel na King Abdulaziz Street. De lá até o Seder Village é necessário ir pela Mecca Road (a estrada que levava até a Mecca, a capital religiosa do Islam!), depois pela Khurais Road, virar na Salman Al Farsi Road (a rua do Seder Village). Todo este caminho não levava mais de 20 minutos, pois como você pode ver pelos mapas, clicando nos links, é tudo estrada com diversas pistas em altíssima velocidade. Quando chegamos, ele já sabia que ia rolar uma festa e eu me lembro dele falando: “Beba por mim e se divirta mundo!”. Eu na hora fiquei meio preocupado com o que ele queria dizer e se podia realmente confiar no que eu estava indo fazer e ele sabia. Imagina se ele me denuncia?
A festa rolou, os gringos estavam se soltando, todo mundo dançando, gente subindo em cima das mesas (a foto lá do topo!), e o álcool rolando. Chegou uma determinada hora, que ninguém mais aguentava tanto álcool. Eu já tinha levantando a bandeira de rendição, e queria voltar pro hotel. Sentamos eu, Daryl e Alan na beira da piscina, compramos mais um garrafa de álcool, mais alguns refrigerantes e contamos várias histórias nossas de viagens, cultura local, comparamos costumes, hábitos, e mais um monte de outros assuntos malucos que só bêbados entendem. Imagina um brasileiro, um sul africano e um irlandês completamente bêbados, conversando em inglês e enrolando a lingua! Era diversão pura e garantida com ninguém se entendendo.

O olho não engana nada. No copo: coca-cola e álcool caseiro
Tentei chamar um taxi mas era em vão, já era umas 5h da manhã, em pleno Ramadan. Sem chances de arrumar um taxi! Alan me convidou para dormir na casa dele, no sofá da sala. Fomos andando pelo condomínio, eu muito bêbado, resolvi sentar no chão porque estava muito cansado. Virei pra ele e disse: “Vai você, eu vou ficar aqui, estou muito cansado, não aguento mais andar!”. Ele não parava de rir e me mandava levantar. Chegamos na casa dele, não aguentei muito tempo, e chamei o Raul bem no jardim florido da casa dele. Cena patética! Isso para quem estava a apenas duas semanas lá e não conhecia muito bem as pessoas. Pois bem, esse ato “falho” nos rendeu muitas gargalhadas depois e acabamos nos aproximando mais, virando amigos, afinal, ele entende muito de beber, já que ele é da Irlanda, o país que mais consome álcool por pessoa no mundo.
Outros compounds também tinham festas com álcool, no mesmo esquema. Garrafas de whiskey, cerveja e álcool caseiro, mas todos foram pegos. Enquanto estive lá, a notícia que corria era que somente o meu (o Seder Village) ainda rolava, mas um dia, enquanto estava no escritório trabalhando, com ordem do principe saudita, a polícia foi lá no compound e prendeu mais de vinte pessoas envolvidas com o esquema.
Depois da prisão, fiquei sabendo como tudo rolava. Os taxistas entravam com todo o material, incluindo açucar, água, entre outros produtos, nos seus porta malas, e levavam para uma casa que ficava isolada no condomínio, bem lá no final. Lá, existiam vários equipamentos para o tratamento do material e produzir o álcool caseiro que rolava liberado nas festas. Depois disso, nunca mais tivemos as festinhas regadas a álcool lá na compound, pelo menos não nos dois meses seguintes que ainda permaneci por lá. Uma pena, senti que o clima ficou pior depois disso, afinal, a sensação de liberdade e de “tudo posso” foi abalada com ordem do governo, ou seja, eles estavam de olho. Big Brother total. Quem deve ter denunciado? Algum saudita que ficou de fora da festa? Algum dos taxistas que queriam beber também? Acho que nunca saberemos.
Por hoje é só. Amanhã, falo sobre como a paquera rola solta entre os jovens sauditas.
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