Blog do Viajante

Categoria colunas

A Pasárgada dos consumidores compulsivos! 7

Aug25

Quando o assunto é viagem, logo se pensa nas compras. É imprescindível, estão diretamente relacionados. Seja você um turista da nata ou um mochileiro sem-grana. No mínimo, um chaveirinho para mamãe será comprado. Para os incontroláveis, o sonho de consumo é a Quinta Avenida ou a Champs-Elysée…

Não estão com nada, essas avenidas…

O “fervo” mesmo, a El Dorado dos compulsivos, é a Ciudad Del Este, no Paraguai. Encontra-se o inimaginável, em liquidações de arregalar os olhos, e nem o mais pão-duro resiste. Claro, os fatos precedem a fama. Falsificações são muitas. É preciso arriscar. O belo aparelho de DVD, de última geração, por irrisórios 30 dólares pode ser uma barbada. Ou uma pedra.

Cinéfilos não podem reclamar. Hollywood ou Bollywood. Chaves e Chapólin ou Pedro Almodóvar representando a cultura hispânica. Bergman e Godard ao lado de “As Pontes de Madison”. As crianças saltitam em êxtase. Brinquedos de todos os tipos. Cuidado para não trocar o Pato Donald de pelúcia gigante, legítimo aos de Orlando, por um Dumbo estrábico.

Roupas de todas as grifes, só quem entende muito de moda sabe a diferença entre a bolsa falsa e a verdadeira. Ou não. Depende do camelô. Cuecas da Calvin Klein variando do ousado fio-dental masculino às ceroulas termais até o tornozelo para quem acampa na Sibéria.

Eu e um amigo regressávamos de viagem da Argentina e do Chile. Pegamos um ônibus saindo de Buenos Aires e, vinte horas depois, chegamos em Foz do Iguaçu. Precisávamos esperar nosso ônibus ao Rio por algumas horas.

Por que não atravessar a Ponte da Amizade?

Atravessamos a fronteira no meio da imensa multidão de sacoleiros. Tudo muamba. Tudo para vender nos centros de São Paulo e do Rio. Meu amigo comprou um DVD. Tiro certeiro, não era uma pedra. Eu comprei dois perfumes e um isqueiro Zippo (que perderia três meses depois).

Na volta, atravessando a ponte, meu amigo até indagou, “e se formos pegos pela Polícia Federal?”.

Bem, não seria problema. Compramos pouco, afinal. Ficamos mais surpresos com a intensa circulação daquela ponte. Quanta amizade!

O ônibus foi uma lição de sociologia.

Descobrimos de imediato: éramos os únicos turistas. Os demais passageiros, sacoleiros.

Claro, houve o choque. Eles se surpreenderam conosco, mas deram as boas-vindas. A primeira medida: fomos isentos da “vaquinha do motorista”. Ou seja, o que cada um paga ao motorista para evitar a Polícia Federal na estrada. É proporcional: quem comprou 40 cuecas não merece pagar o mesmo valor de quem comprou 40 laptops.

A disputa foi acirrada e, no final, o motorista era honesto. Recusou a propina, o que é uma raridade, conforme descobri.

A simpatia conosco prosseguiu. Um senhor, que trazia umas 30 garrafas de vodka importada, abriu uma e declarou, “está aqui é para agüentar a viagem! Estão servidos?”.

A Polícia Federal parou o ônibus, simplesmente, umas dez vezes. Sempre alguém era apreendido.

Dependendo do caso, havia a solidariedade ou a repulsa.

“Coitado do Fulano, só comprou 20 tênis”.

“Ah, o Beltrano mereceu. Exagerou com 15 computadores”.

Eu e meu amigo nos preocupamos: e se a polícia nos revistar?

“Tenho uma câmera digital! Juro, já era minha, não comprei no Paraguai”.

“Não se preocupe”, confortou-me um dos sacoleiros, “você tem uma câmera”.

“E os meus dois perfumes?”

“São apenas dois perfumes. Tem gente aqui com 50”.

Inevitável: eu e meu amigo estávamos nervosos com a situação. A polícia percebeu.

Foi rápido, logo, incrédulos, perceberam que nós éramos realmente turistas.

Vinte e oito horas depois, com dez paradas da Polícia Federal e inúmeras combis aguardando no meio do caminho para descarregar a mercadoria (sem levantar suspeitas caso fosse numa rodoviária), conseguimos voltar ao Rio de Janeiro.

Uma aventura e tanto! Quanto vejo um camelô pela rua, impossível não lembrar daquelas horas no ônibus e esboçar um leve sorriso de nostalgia.

Eduardo Cidade, 25, é jornalista e percorreu mais de trinta países. Atualmente se aventura pelas bandas da Índia, Tanzânia, Moçambique e outros lugares bizarros e desconhecidos na sua tentativa em tornar-se antropólogo. Sempre viajou regularmente desde a infância, bem turista-way-of-life, mas aos 20 foi morar sozinho na França durante oito meses. Não voltou o mesmo e desde então adora percorrer o mundo com mochila nas costas.

Noitadas peruanas 0

Nazca é um vilarejo de 20 mil habitantes isolado no Peru. Mundialmente famoso, claro, gracas às suas enigmaticas linhas. Uns, mais místicos, acreditam que os antigos habitantes pré-incas construíram tais formas animalescas que só podem ser vistas do céu como centro de pouso para alienígena. O mais provável é que foram mensagens e suplícios aos deuses, ou mesmo registros da vida cotidiana. Igual ao homem da caverna, mas no solo, para ser admirada do alto.

Pouco importa, sobrevoar as linhas num aeroplano e visitar seu cemitério de múmias faz de Nazca um dos atrativos chaves do Peru, apesar de ofuscado por Machu Picchu. Cheguei num domingo pela noite e, precipitadamente, confirmei fazer o passeio mediante o hotel em que me hospedei. Grande erro: paguei 60 dólares, ao invés dos 30 regularmente cobrados. Questionei meu guia, exigi desconto. Ele retrucou, “não se afobe, Eduardo. A Aninha, de 15 anos, que te apresentarei esta noite, será teu desconto”.

Achei melhor pular fora. Prostituição infantil nao é desvendar o mundo, é crime. O que não quer dizer que passaria a noite sem festa, naquela segunda-feira de verão peruano. Nazca à noite: nem as galinhas cocoricam. Silêncio absoluto. Todos os bares, fechados. Senti uma melancolia ao perceber o quanto aquele universo era calmo. O tempo parece não passar e as distâncias, curtas de alguns quarteirões. Incrível como a mais elementar das noções – a de tempo e espaço – varia tanto conforme a cultura local. Eu e minha amiga – a garrafa de Pisco (sagrada bebida reservada à aristocracia em épocas pré-colombianas. Atualmente, expostos em qualquer mercadinho) – circulamos a cidade inteira em busca de movimento. Em outras palavras, meia dúzia de ruelas. Até que avistei um certo movimento, no segundo andar de um prédio em ruínas e postulei: é pra lá que eu vou.

Cheguei na festa atacando o bufe de empanadas de frango (vingando-me das galinhas que não te deixam dormir a madrugada) antes de cumprimentar a anfitriã. Uma mulher grávida me acolhe amistosamente, alegando para me sentir em casa e degustar outras empanadas. Tratava-se de um chá-de-neném. Chá-de-neném na desolada Nazca duma segunda-feira…
Foram todos muito receptivos. Como sempre, a linda sensação de ser o estrangeiro, o convidado, e sentir o orgulho de um povo em compartilhar sua tradição contigo. O mundo nunca cessa de me impressionar.

Avisto uma menina solitária, sentada num sofá. Resolvo posar de Dom Juan, gastar meu espanhol e “sacar una chica para bailar”.

Obviamente, a fama de ser o viajante aventureiro, trangressor de fronteiras, constuma contar a favor como chame extra.

Ela aceita o convite sorridente. Dançamos e até a grávida nos congratula. Cada vez nos aproximando. Aprendo que a menina estuda fármacia em Arequipa e, estranhamente, conhecia mais franceses e italianos do que brasileiros. Longa a distância entre Brasil e Peru, não? Ou apenas desinteresse?

Chegam uns garotos, com mais garrafas de Pisco. Convidam-me para beber com eles e sigo. Pensei que a menina viria comigo, naturalmente. Ao invés, ela voltou a sentar-se sozinha. Então sou explicado: no Peru, ao convidar uma menina para dançar, é preciso dançar com a mesma a noite inteira. Caso ao contrário, ela se entristece. Bem diferente das noitadas do Rio de Janeiro, não?

Não se trata de convervadorismos ou hipocrisia. Lugares são simplesmente diferentes e, como viajante, nao se deve jamais julgá-los. Ao contrário, o essencial é entendê-los.

Aquela pequena festinha em Nazca permanece, em minhas lembranças, uma das grandes noitadas da minha vida. Até porque, a menina lembra de mim e somos bons amigos virtuais.

Eduardo Cidade, 25, é jornalista e percorreu mais de trinta países. Atualmente se aventura pelas bandas da Índia, Tanzânia, Moçambique e outros lugares bizarros e desconhecidos na sua tentativa em tornar-se antropólogo. Sempre viajou regularmente desde a infância, bem turista-way-of-life, mas aos 20 foi morar sozinho na França durante oito meses. Não voltou o mesmo e desde então adora percorrer o mundo com mochila nas costas.

Choque Cultural 0

O maior barato de viajar é o imprevisto. Não se sabe ao certo o que veremos. Afinal, temos algumas idéias dos atrativos principais de um país mediante fotos e informações que nem de longe são suficientes para refletir tudo o que nos aguarda. Sobretudo, as pessoas que conheceremos. É o famoso choque cultural. Ao passar a maior parte de sua vida convivendo numa específica comunidade, o homem tende a fazer generalizações do cunho “ninguém presta” ou “a natureza humana diz que isto é certo e aquilo, errado”. Não poderiam ser mais equivocadas, eis a origem de todo preconceito. Mas quem de nós nunca generalizou?

Lembro quando visitei o deserto do Saara, no Marrocos, pela primeira vez. Naquele dia, era o aniversário de Said, o motorista do táxi ligando os vilarejos de Rissani e Merzouga ao deserto. Chegamos no albergue, feito de blocos de barro com dromedários circulando sua volta. Encravado no Saara.

O guia para contemplar o crepúsculo chamava-se Mohamed, um jovem berbere de apenas dezessete anos. Durante as horas passadas em cima das dunas douradas, onde não importa para que lado se olha, a paisagem é composta de infindável areia, iniciei assunto com Mohamed. Relembrou que a fronteira com a Argélia fica há apenas 50 quilômetros de distância. Perguntei-lhe se já estivera lá e ele respondeu-me que, durante toda sua vida, nunca saiu do pequeno trecho ligando Rissani e Merzouga. Estudou até o Ensino Fundamental, pois começara a ajudar a família e não poderia mais ir, diariamente, à escola em Rissani. Impossível não ponderar, “o quê temos em comum senão o fato de, hoje, assistirmos este pôr-do-sol em pleno Saara?”.

O espetáculo vale o investimento financeiro. As dunas, de acordo com a luz solar, mudam de douradas para uma cor púrpura.

Na volta ao albergue, Mohamed tentou-me vender alguns artesanatos fabricados por seu pai, ofício em que ele começa a aprender. Não tinha dinheiro comigo, no entanto indaguei sobre um curioso objeto. Afirmou ser o fóssil de um animal pré-histórico, frisando “de alguns milhões de anos”. Sorri pela ingenuidade e sinceridade de sua resposta.

De noite, a fim de comemorar o aniversário de Said, o motorista, fomos até Merzouga comprar comes e bebes. Para conseguir cerveja e outras bebidas alcoólicas, meu guia e Said precisavam negociar em becos, como se tratasse de drogas ilegais. Um verdadeiro comércio contrabandista.

Entraram no carro outros convidados para regressarmos ao albergue, entre estes, mulheres cobertas em bourkas, deixando apenas os olhos à mostra. Estranhei a situação, vide em meus préconceitos, ser inconcebível imaginar tais mulheres numa festa.

Enquanto um rapaz preparava o tagine de carne e outro acendia o carvão para a chicha, as mulheres trocaram de vestimentas num quarto. Completamente ocidentalizadas, de cabelos soltos, calças jeans e blusas modernas. A transformação não limitou às roupas. Suas atitudes também. Fátima, a namorada de Said, de vinte e poucos anos, foi quem mais me chamou atenção. Ela não falava francês, os demais traduziam nossas palavras para possibilitar nossa comunicação. Fátima ria, fumava cigarros, bebia o álcool proibido pelo Alcorão, como se fosse uma Ocidental. Uma mulher totalmente diferente daquela que adentrou o carro minutos antes. Na hora de dançar, me chamou para ser seu par: o estrangeiro. Com o consentimento de Said, claro. Mostrou-me, então, suas raízes orientais, seus gestos suaves e delicados. Aquela notável dança não era um show pago para turistas em Marrakech, não era uma transmissão televisiva. Fátima não estava fantasiada de odalisca para agradar os estrangeiros, tampouco sua forma física condizia com nosso estereotipo ocidental. A beleza era, justamente, a naturalidade e a espontaneidade de seus movimentos.

Antes de dormir, em altas horas da madrugada, vale a pena conferir o imenso céu estrelado do deserto.

Eduardo Cidade, 25, é jornalista e percorreu mais de trinta países. Atualmente se aventura pelas bandas da Índia, Tanzânia, Moçambique e outros lugares bizarros e desconhecidos na sua tentativa em tornar-se antropólogo. Sempre viajou regularmente desde a infância, bem turista-way-of-life, mas aos 20 foi morar sozinho na França durante oito meses. Não voltou o mesmo e desde então adora percorrer o mundo com mochila nas costas.

Veneza e a imprevisibilidade da vida 6

Às vezes me pergunto o quanto nossas vidas são tão previsíveis e imprevisíveis ao mesmo tempo. Por exemplo: você acorda, come o café da manhã, trabalha, almoça, regressa ao trabalho, retorna em casa, toma banho, janta, assiste televisão e dorme. Impreterível e cotidiano. Do nada, encontra o amor de sua vida ou sofre um grave acidente. Inesperado. Não é engraçada essa dualidade, o imprevisível acorrer durante o previsível ou o contrário?

Se alguma das cidades das quais perambulei representasse esta dialética mais destacada do que outras, certamente seria Veneza.

Ah, encantadora Veneza. Cidade de amantes, de gôndolas charmosas, de incontáveis canais e monumentos. Quem não gostaria de passar uma lua de mel lá? Ou desfrutar uma pizza numa taberna categoricamente italiana? Não é isso Veneza? A mais e menos italiana das cidades da Itália? Diferente de tudo. Mama mia!

Minha relação com Veneza iniciou-se aos treze anos. Linda? Claro. Veneza e Praga talvez sejam as únicas cidades capazes de rivalizar com Paris. Naquele momento, fui como turista pré-adolescente, acompanhando papai e mamãe. A estória vocês sabem. Bons hotéis e restaurantes, excursão, guias turísticos apresentando-me palácios renascentistas e passeios de gôndola por entranhas góticas. Tão turisticamente típico. Encantei-me por Veneza, assim como Florença. Talvez a Itália fosse meu destino, porém, simplesmente a mulher da minha vida é Paris.

Anos mais tarde, já na condição de jovem adulto, retomei a cidade portuária onde, junto de Gênova, outrora monopolizou o Mediterrâneo.  Meu objetivo: fazer exatamente como o filho de Edmond Dantes, protagonista de “O Conde Monte Cristo” de Victor Hugo Alexandre Dumas. Ou seja, passar o Carnaval no famosíssimo baile de máscaras. Acreditem, comprei uma! Óbvio. Romeu e Julieta não se conheceram assim em Verona? De máscaras e, lenta e minuciosamente, retirando-as aos poucos? Então. Quis imitar.

Máscaras para o tradicional baile de Carnaval de Veneza, Itália. Foto:

Máscaras para o tradicional baile de Carnaval de Veneza, Itália. Foto:

Cheguei em Veneza no sábado de Carnaval no início da tarde. Até achar um hotel barato, quilômetros de distância do centro… Custou muito tempo! Raciocínio lógico: “estou no Carnaval de Veneza e pularei até o amanhecer. Preciso dormir e acordarei de noite. Chego no centro em plena meia-noite, no pico da festa”.  Dormi, acordei dez da noite, vesti minha máscara, peguei um barco até a ilha principal e dirigi-me à <a href=” />Piazza Sao Marco. Isto mesmo. A lendária praça com a maior quantidade de pombos do mundo. Nem Alfred Hitchcock, no seu filme de pássaros assassinos, suportaria tantas aves. Correndo rumo à praça, avistei pessoas caminhando na direção contrária. Fiasco total. Veneza, durante o Carnaval, é uma desgraça! Não tem festa. Tudo é diurno, uns shows de acrobacia, de música e tal. De noite, morta. Entregue às moscas.

Pois é. Fui tão infeliz quanto o personagem dum conto de Edgar Allan Poe que foi enterrado vivo em catacumbas durante este célebre carnaval.
Atualmente trabalho numa companhia de cruzeiros. Meu cargo é um tanto indefinido. Mudo diariamente. O garoto que rodou o mundo que sequer suporta permanecer no mesmo país durante bastante tempo jamais conseguiria continuar na mesma posição. Foi a terceira vez em que encontrei Veneza. Linda como sempre. Veneza não mudou. Eu mudei. O turista pré-adolescente passou por Veneza. Assim como o jovem adulto ávido por festa. Agora, o trabalhador numa companhia de cruzeiros…

Três personagens distintos, em situações completamente diversas, na mesma cidade. Em cada uma destas, meu olhar à respeito de Veneza muda. Ela continua cheia de pombos, canais e gôndolas. Apenas eu a enxergo com outros olhos. Não é isso que fazemos inúmeras vezes em nossas vidas? Reconhecer o valor de determinado fato ou acontecimento posteriormente apenas por não compreender ou refletir no momento? Veneza é a prova viva disto para mim.

Loja com máscaras à venda para o tradicional baile de Carnaval de Veneza, Itália. Foto: BrunoLC

Loja com máscaras à venda para o tradicional baile de Carnaval de Veneza, Itália. Foto: BrunoLC

Gôndolas pelos canais de Veneza, Itália. Foto: bbenvegnu

Gôndolas pelos canais de Veneza, Itália. Foto: bbenvegnu

Gôndolas pelos canais de Veneza, Itália. Foto: angel

Gôndolas pelos canais de Veneza, Itália. Foto: angel

Eduardo Cidade, 25, é jornalista e percorreu mais de trinta países. Atualmente se aventura pelas bandas da Índia, Tanzânia, Moçambique e outros lugares bizarros e desconhecidos na sua tentativa em tornar-se antropólogo. Sempre viajou regularmente desde a infância, bem turista-way-of-life, mas aos 20 foi morar sozinho na França durante oito meses. Não voltou o mesmo e desde então adora percorrer o mundo com mochila nas costas.

A mãe e a esposa: uma disputa pacífica entre Rio e Paris 3

Se me questionarem qual prefiro dentre todos os países visitados, hesitaria entre dois: o Brasil e a França.  A pátria-mãe e a pátria-esposa. A mãe e a esposa. A primeira, cheia de problemas, chata, pragmática e problemática. Pega no seu pé e “enche o saco”. Mas é única e vitalícia, unida por laços sanguíneos, porém invisíveis. Não temos escolha: é a mãe e pronto! A segunda, a esposa, é a escolha do livre arbítrio, o tesão, o desejo, o ímpeto de descobrir a cada dia uma novidade. Quando enjoar, basta solicitar o divórcio. Assim enxergo o Brasil, a mãe; e a França, a esposa. 

O Rio de Janeiro e Paris, sendo específico. O estereótipo: o Rio é a cidade do pão-de-queijo com requeijão e da cachaça com “pegação”. Dos botecos da Lapa, de Chico Buarque, do Deus Carnaval, do pôr-do-sol no Arpoador, dos quiosques da Avenida Atlântica. A Cidade Maravilhosa. Paris é Deleuze, Foucault e Lacan. A cidade das artes, da Notredame, do Louvre, dos cafés de Montmartre. Onde o queijo se chama brie ou roquefort. O vinho, por mais barato que seja, não deixa de ser do pays de la Loire.  A rainha das soberanas; a cidade mais linda do mundo.

 

Desfile da Vila Isabel 2008, Sambódromo, Rio de Janeiro, RJ. Foto: sfmission.com

Desfile da Vila Isabel 2008, Sambódromo, Rio de Janeiro, RJ. Foto: sfmission.com

O Rio das festas, do Sambódromo, da Banda de Ipanema e do Ano Novo em Copacabana. Do jeitinho brasileiro, do malandro. A Paris dos museus, das grifes na Champs-Elysée, das Nuits Blanches. Da elegância francesa, do artista.

 

Qual destas bate mais forte no meu coração? Não sei. Quando estou numa sinto saudade insuportável da outra. Em Paris, lembro a letra de uma canção francesa, “jamais esquecerei meu país. Os amigos de infância e amores adolescentes”. No Rio, recordo de outra melodia, “Viagem, viagem! A cada lugar, uma descoberta”. No Rio, estou em casa, com meus amigos de longas datas, com a vida habituada desde minhas primeiras palavras. Aprendi a falar em português. Em Paris, sempre conheço gente nova, aprendendo mais do savoir-vivre. Aprendi a ser viajante em francês. Sou o festeiro das noitadas no Rio, sou o intelectual das livrarias em Paris. Meu apelido é brésilien na França e francesinho no Brasil.  

O Rio e Paris marcaram minha personalidade. Jamais meu sangue deixará de ser verde e amarelo, mas não nego que as cores do azul, do vermelho e do branco correm em suas veias. O Rio e Paris. A mãe e a esposa. Todo homem, cedo ou tarde, deixa a casa da mãe para viver com a esposa. A pátria que nasci e a que escolhi viver. No Rio, sinto nostalgia ao ver fotos de Paris. E vice-versa. Parece que nunca estou satisfeito. Nas madrugadas da Avenida Vieira Souto, sinto falta do Rio Sena. E o oposto: nas escadas da Sacré-Coeur, admirando a Torre Eiffel, quero chorar relembrando o Cristo Redentor

O Rio da alegria, do calor latino, dos abraços e dois beijinhos da bochecha com desconhecidos. A Paris das revoluções, dos movimentos, da queda da Bastilha, de maio de 1968 no Quartier Latin.  O Rio do Fernandinho Beira-Mar e a Paris de Sarkozy. Se pudesse me dividir em dois e estar onipresente nas duas cidades simultaneamente…

 

Catedral de Notredame, Paris, ao entardecer.

Catedral de Notredame, Paris, ao entardecer.

Amo, de carinho maternal, o sofrido e carismático povo brasileiro. Amo, de tesão e volúpia intelectuais, o utópico e transgressor povo francês. Sou um garoto de coração brasileiro e ideologias francesas. Se pudesse ser como as aves e migrar conforme as estações, não existiria inverno em minha vida. Mudaria do hemisfério norte ao sul seguindo o verão. Rio e Paris, sempre no auge de seus respectivos esplendores. O melhor da mãe e o melhor da esposa. O verão carioca das praias, dos campeonatos de surf, dos vendedores ambulantes na areia. O verão parisiense dos festivais de música, teatro e cinema. 

 

De que somos feitos senão das memórias do passado e planos para o futuro? A vida é como uma pirâmide. O passado é a base e o futuro, o pico. O Rio simboliza o passado e Paris, o futuro. Qual amo mais, afinal? Se analisarmos friamente e concordamos com Freud, a mulher matriz de um homem, aquela que ele sempre amará em primeiro lugar, mesmo em prol da esposa, não seria a mãe?

Eduardo Cidade, 25, é jornalista e percorreu mais de trinta países. Atualmente se aventura pelas bandas da Índia, Tanzânia, Moçambique e outros lugares bizarros e desconhecidos na sua tentativa em tornar-se antropólogo. Sempre viajou regularmente desde a infância, bem turista-way-of-life, mas aos 20 foi morar sozinho na França durante oito meses. Não voltou o mesmo e desde então adora percorrer o mundo com mochila nas costas.

Blog do Viajante is powered by WordPress