O tesão de um muçulmano que quase acabou com uma viagem… (parte 1) 6
Mohammed é um cara jovem, do alto de seus 20 e poucos anos. Muçulmano, marroquino e assim como eu, trabalhando na área de tecnologia. Mohammed tem sonhos ambiciosos, tão grandes e tão distantes de seus amigos, que Marrocos era pequena demais, e foi parar no Canada.
Mas pera aí, eu já tô no final desta história. Volta tudo.
Era o verão europeu de 2008. Eu, Natália e Adriana, viajamos para passar uma temporada entre Ibiza, Marrocos, Portugal e Espanha. Foi uma viagem planejada por um ano, rodeada de expectativas e uma emoção gigante de poder voltar àquela terra que durante tantos meses havia me acolhido de uma maneira tão especial, que me fez querer voltar lá sempre e sempre. Foram meses de pesquisas e aprofundamento em Marrocos, buscando novas experiências, conhecer novos lugares, que a preguiça da primeira vez não havia deixado. Afinal, seria uma viagem específica para isso, apenas rodar por qualquer lugar, sem preocupação com trabalho e responsabilidades, apenas curtição.
Mal sabia eu que esta visita se tornaria a minha maior confrontação de diferenças culturais, muito mais forte do que uma amizade que você julgava ser acima disso. Puro engano.
Mohammed e eu nos encontramos no Aeroporto de Marrakech. Ele super atrasado com os problemas que o sistema de trem marroquino teve no dia, eu meio nervoso pelas complicações com mudanças de carro que nos foram impostas, mesmo com a reserva feita. Eu ansioso por encontrar meu amigo e saber se ainda poderíamos ser capazes de sairmos e rirmos juntos, bebermos umas cervejas, como dois amigos. Fazia pouco mais de um ano que não nos encontravámos desde minha partida de volta à minha casa, e apesar do nosso constante contato via internet, eu ainda ficava apreensivo por algo ter mudado neste período. Vivemos em duas culturas tão radicalmente diferentes, que não seria muito estranho se depois desse tempo fossemos novamente dois estranhos.
Fiquei aliviado depois do nosso encontro. Me tratou como velho amigo, com o mesmo sorriso aberto e espontâneo, mas ao mesmo tempo comedido, da maneira marroquina, sabe? Os marroquinos não extravasam felicidade como nós brasileiros. São bem mais fechados. Herança de uma cultura islâmica? Pode ser. Mas são certamente os que mais deixam você se aproximar e se tornar amigo, muito mais que outros países também arábes. Marrocos é quase Europa devido a sua proximidade com a Espanha, mas muito severa pelo seu regime islâmico, apesar de não ser obrigatório, e ser totalmente aberta a outras religiões, o que de certo modo restringe o comportamento afetivo.
Mohammed ficou responsável por arrumar nossa hospedagem por todas as cidades que iríamos passar naquela semana pelo Marrocos. Marroquinos são assim, possuem uma rede de contatos em cada cidade.
Saímos em direção ao apartamento que ele havia reservado para nós quatro passarmos os primeiros dias, antes de seguir ao deserto do Saara. Era um prédio um pouco diferente dos outros normalmente resididos por marroquinos: ele tinha elevadores, piscina, era realmente grande. Talvez não justificasse o exorbitante valor que nos foi cobrado (15000 MAD), mas já estavámos ali, e acabamos por ficar. O cansaço no rosto de cada um entregava silenciosamente o que todos queriam fazer, tomar um banho e descansar um pouco antes de se aventurar naquela que é a mais vibrante medina de Marrocos, a Djemaa El Fna. Encantadores de serpente, mágicos, malabaristas, acrobatas, mulçumanos sentados em tapetes lendo o Alcorão, dentistas que exibem dentes extraídos como prova de sua competência. Tudo acontece ao mesmo tempo, e o tempo ali nada mais é do que a soma dos segundos que definem novos sentidos.
Depois que Mohammed volta de seu banho, senta-se comigo para iniciarmos uma conversa, experimentando uma tradição marroquina, enquanto Natália entrava para tomar um banho. De onde eu e Mohammed estavámos, podíamos ver a porta do banheiro e quem entrava e saía. Continuamos por ali conversando animadamente, na TV passando clipes de bandas e cantores marroquinos com muita desinibição, esperando Natália sair de seu banho, sem imaginar que este seria um divisor no meu entendimento, aceitação e respeito à outras culturas e religiões.
Natália é uma menina bonita. Brasileira, morando no exterior, chama atenção por onde passa, tem um corpo lindo, olhos um pouco puxados que lhe conferem uma cara de ninfetinha e muita presença. Não havia como evitar que qualquer um tivesse desejo por ela, era simplesmente natural.
A cena que viria a seguir iria afetar nossa viagem em Marrocos por completo. Natália sai do banheiro enrolada em uma toalha branca, cobrindo desde seu busto, até metade de suas coxas, bem torneadas e morenas de muito sol nas praias de Ibiza, deixando ainda um enorme pedaço de perna, ombros e braços totalmente visíveis. Lembro de ter visto Mohammed olhando fixamente para ela, e conforme ela ia se aproximando de nós ele ficava cada vez mais impaciente, mexendo seu pé, até que ela parou em sua frente e pegou algo de sua mão. Mohammed não conseguia mais olhar para ela, direcionando seus olhares para mim. A situação estava montada e eu ainda não havia percebido.
Quem olhasse de fora, do mundo ocidental, acharia aquele cenário, o verdadeiro de uma orgia. Marrocos com suas cores fortes, especialmente Marrakech, a cidade vermelha, reflete isto também dentro de suas residências, com almofadas, sofás, cortinas, tapetes, tudo em tons de vermelho e dourado muito intensos, com muitos bordados e muitos detalhes geométricos, parte da tradição marroquina. Mohammed vestindo apenas seu djellaba, Natália apenas de toalha, um de frente pro outro.
Estranhamente ele fala que precisa dormir um pouco, que estava cansado. As horas vão passando, e por termos chegado pela manhã e não havíamos comido nada, precisavámos sair para arrumar alguma coisa. Elas insistem e eu vou tentar acordar meu amigo. Mas antes não sem bater aquela dúvida, entro ou não entro no quarto? Na dúvida, bato diversas vezes e ele não acorda, não restando opção se não entrar no quarto. O toco e ele acorda assustado, se sentando rapidamente. Me sento na outra cama e ele fala que precisa conversar comigo. O que seria? Fiquei assustado. Será que fiz algo errado?
Lembro de toda a cena com completa perfeição. Estavámos sentados, um de frente pro outro, a luz do quarto desligada, sendo iluminados pelo sol que começava a se pôr do lado de fora, que entrava por uma espaçosa janela na lateral do quarto. O cenário estava montado para o choque cultural, de pensamentos, ideologias e religião.
Ele diz: “Preciso ir embora!” – Minha cara foi de “como assim?”. Ele esquivou-se, não queria falar, só dizia que precisava ir embora. Até que depois de muita insistência, ele dispara: “Vocês já transaram agora ali na sala?”
Foram exatas duas horas e meia de um dos papos mais difíceis de toda a minha vida, ele um rapaz moderno, antenado com o mundo ocidental, mas ainda um fundamentalista islâmico. Eu, um ocidental ultra liberalista engatinhando nas entranhas do que é a cultura muçulmana, sendo de certo modo presenteado com uma experiência única de enriquecimento do entendimento sobre o quanto somos iguais e diferentes ao mesmo tempo, o quanto a sociedade que crescemos e aprendemos abraçar e fazer parte, determina nossos pensamentos e ideologias, nosso modo de agir e responder às situações adversas.
Afinal, como vencer a barreira do pensamento muçulmano de que um homem e uma mulher não podem simplesmente ser amigos? Que não precisam ser um casal, transar, ou coisa que valha. Esse foi o ponto central de toda esta conversa. Pensava eu, mas como pode, um país tão próximo da Espanha, invadido literalmente por milhares de europeus toda semana, despejando sua cultura e seus modos, e ainda me deparar com este tipo de pensamento? São pensamentos que para mim são desconexos, afinal, meus melhores amigos incluem diversas mulheres excepcionais, e ali estavam duas comigo.
Finalmente Mohammed confessa que na hora que viu Natália sentiu um enorme desejo. Desejo talvez não seja melhor descrever o que ele sentia, o que eu sentia ouvindo suas palavras enquanto falava dela. Mohammed sentiu foi um enorme desejo incontrolável, uma vontade louca e enorme de agarrá-la, um verdadeiro tesão mesmo. Mas Mohammed se culpava, afinal tinha uma namorada que dizia gostar muito, e que não queria traí-la. Era errado, era contra sua família, era contra sua religião. Tinha medo que em nossas saídas, depois de algumas cervejas, não se controlasse e fosse agarrá-la. Ele tinha medo de não segurar seus instintos. Tentei convencê-lo de que era normal, ele era homem, não havia nada de errado nisso. Mas que ele não era obrigado a fazer nada, guardar tudo aquilo para ele. Falei como bom e velho amigo, “não consegue se segurar, vai ali no banheiro e relaxa”. Afinal, que amigo não dá um conselho desse para outro? Coisa de brother, como todo carioca costuma dizer.
Expliquei o quão natural é em nossa sociedade e diversas outras culturas ocidentais a amizade real entre um homem e uma mulher, o quanto isso era respeitado e entendido e (quase) nunca interpretado com maldade por outras pessoas. Coisas do cotidiano. Minha esperança era de passar um pouco de informação para ele, uma troca cultural, que fizesse ele abrir um pouco a cabeça e aceitar que não há nada demais nisso. Foram palavras, frases, todas com muita esperança de tentar convencê-lo a não ir. Nada adiantou, ele ficou irredutível em sua posição de nos deixar para não ceder à tentação.
Enquanto mais cedo estavámos conversando animadamente na sala, ele havia me revelado o quão feliz estava porque iria se mudar no final do ano para Montreal, no Canadá, logo depois de seu irmão mais novo, que iria poucos meses antes. Tinha a expectativa de construir uma vida melhor, muito diferente daquela que tinha em Marrocos. Mas você estaria enganado de achar que ele fazia parte da média marroquina. Ele era muito bem instruído, já com faculdade concluída e trabalhando com coisas complexas na área de tecnologia. Morava em um condomínio relativamente novo, fora do centro da cidade e em melhores condições que a boa maioria dos marroquinos. Reclamava que seu governo era corrupto, que não cuidava dos pobres e que não havia muitas chances de crescimento profissional. Ele estava decidido que ali não era mais o seu lugar, iria deixar seus pais e se juntar ao seu irmão em uma aventura pela Canadá em busca de melhores oportunidades. De certo, eles não são os únicos, com a intensa recente campanha canadense em busca de profissionais estrangeiros para ocupar os cargos disponíveis em grandes empresas.
Lembrei de tudo isso sobre o Canadá, primeiro fiquei preocupado e pensando comigo o que iria acontecer com ele, vivendo e vivenciando uma cultura totalmente nova e muito mais relaxada com relação a isso. Depois de muito pensar mandei ver: “Mas o que você acha que vai ver e viver no Canadá? Garotas educadas, comportadas e muçulmanas? Desculpa te falar a verdade, mas é mais provável que veja um monte nua ou semi-nua.” Não tinha como evitar, ele tinha que se ligar que ele deveria desde já aprender a lidar com essas situações. Não sei se fui duro demais, mas sei que continuou não surtindo efeito.
Com o escurecer, Natália e Adriana, impacientes e com fome, batem na porta interrompendo. Conversamos em português e falei que a situação era grave. Bom, pra mim pelo menos era. Eu tinha ficado com ela sensação estranha de “sem chão”, sabe como é? Difícil explicar, mas eu fiquei mal. Pedi mais um tempo, continuei tentando convencê-lo, mas nada mudava sua idéia. Me dei por vencido e falei que iríamos comer. Ele já estava arrumando suas coisas para ir embora. Saí, expliquei às garotas o que houve, elas ficaram chocadas. Não por menos, ninguém poderia esperar por isso, muito menos eu que o tinha como amigo. Será que amigo deveria fazer isso? Ou suas ideologias e crenças estão sempre acima de suas amizades e até mesmo família? Cada dia que passa tenho mais certeza dessa resposta. Não muito tempo atrás, os irmãos de uma mulher na Arábia Saudita à queimaram viva em um lugar longe no meio do deserto, simplesmente porque ela havia se exposto e uma foto com o rosto dela e todo seu corpo estava circulando entre amigos. É esse o tipo de exemplo que a cultura muçulmana fornece. São proporções diferentes, é claro, mas cada vez mais isso é evidenciado, pelo menos pra mim.
Nos despedimos com um longo abraço e uma última tentativa de fazê-lo desistir da idéia e adivinha? Não rolou. Seguimos para a medina de Marrakech, famintos e em silêncio. Fiquei surpreso por estar com boa memória e lembrar das principais ruas de Marrakech e consegui chegar tranquilamente, mas o mesmo não se pode falar do caminho de volta, onde ficamos umas duas horas andando e tentando buscar ajuda para chegar no apartamento que estavámos. Estacionamos o carro e fomos andando em busca de comida, incrivelmente silenciosos, até que Adriana corta o silêncio e se mostra extremente nervosa pela fome que sentia havia algumas horas. Depois de algumas deliberações, escolhemos um pequeno, aconchegante e ultra quente restaurante na medina.
(continua…)
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Desculpa a sinceridade, mas sua amiga é muito sem noção de ficar pelada na frente de alguém que não conhece…. vc não entendeu que para seu colega marroquino isso significava que ela estava simplesmente pronta para qualquer um que viesse. E como ela dizendo pode vir que eu aceito. É claro que ele não entendeu a mensagem….
Tá, eu sei que não é isso, sou brasileira e sei como as pessoas pensam, mas também morei em país islâmico e sei como é completamente o raciocínio.
Também não concordo em dizer que pq a menina veste roupa curta ou namora, ela deve ser mal vista, é a cultura de cada um, mas a gente tem de saber onde está. Num país islâmico, vc não vai querer beber na rua nem sair de decotão. Muito menos desfilar de toalhinha na frente de homens. O problema da maioria dos turistas é que eles não se importam com o que o outro vivem, acham que por estarem gastando dólares podem agir de qualquer forma e num país islamico isso geralmente não vai dar certo, a não ser se vc está num hotel cinco estrelas só cercados de gringos.
Quando ele vai para o Canadá, também não vai poder exigir que as pessoas pensem como ele e sigam o que ele acha certo. Mas o lugar que se está faz muita diferença para cada tipo de situação.
Acho que houve muita insensibilidade da parte de vcs em entender uma cultura e só de vc achar que isso é “fundamentalismo” já mostra isso. Não é ser radical não aceitar uma mulher pelada na sua frente, mas básico e simples como comprar pãozinho francês no Brasil. E para ele a situação se tornou insustentável no primeiro momento em que ela se mostrou totalmente disponível para se deitar com ele ou qualquer um (dentro da cultura dele e isso que ela mostrou). E quando as pessoas estão no seu país, tendem mesmo a segurar os instintos, pensar mais na família e na moral. Muitos muçulmanos fora de casa fazem a festa, bebem e fazem de tudo, e quando voltam pro país de origem parecem uns santos. Hipocrisia também, claro…..
bom, o tema é mto complexo!!! Mas espero que goste do debate…seu blog sempre me faz pensar.
salam!
.-= Marina´s last blog ..Mama egípcia no Brasil =-.
Olá Claudio
Gostaria de te parabenizar pelo blog. Encontrei-o meio que sem querer e logo já estava apaixonado pelos seus textos e fotos .
Me chamo Davi, sou estudante de jornalismo e meu trabalho de conclusao de curso é um livro sobre minhas viagens pela Europa de Mochila.
Alguns textos estao no meu blog (que ainda está em construçao mas aos pouquinhos vai ficando mto legal. )
http://vousairparaveroceu.blogspot.com/
Se você se interessar posso mandar por email alguns dos textos do livro
Abraçao e parabéns mais uma vez
.-= Davi´s last blog ..A dois passos do paraíso =-.
Olá Cláudio!
Parabéns pelo Blog, é muito interessante os seus textos, suas histórias, suas viagens pra lugares tão inusitados (e são, as vezes os melhores bem sei! Hoje moro na Rússia, o porque é um mistério).
Nessa sua história tenho que concordar com a Marina, foi errado o que sua amiga fez. O povo marroquino já parece ser bem tolerante com os turistas, mas isso não quer dizer que eles aceitam, afinal cultura é cultura e qualquer mudança leva tempo.
Foi falta de respeito, e seu amigo estava certo em se afastar se ele não sabia o que poderia fazer se perdesse o controle (quantas pessoas não queriam ter alguém que controlasse os instintos como ele fez?).
Claro, nós aprendemos com nossos erros, como ele vai aprender com os erros dele quando estiver no Canadá.
Mas é isso aí.
Parabéns!
Abraço!
Parabéns pelo blog. É de primeira qualidade.
Sobre o post, acho que não cabe a ninguém julgar o que aconteceu.
Mas estou curioso para saber como a história terminou. Quando é que vai ser publicada a segunda parte?
Adorei, parabéns
Sobre o blog. Achei teu amigo marroquino muito educado e respeitoso, ja ouvi histórias aqui mesmo no Brasil em que o cara não se controlou e foi logo propondo coisas e passando a mão, ele ao contrario preferiu sair de cena.
Se não fosse cenas da vida real, sem dúvida seria uma ótima crônica!
É chocante o abismo cultural que se tem entre ocidente e mundo islâmico. Eu vivo em Dubai e convivo diariamente com pessoas advindas de vários países árabes… é mesmo muito estranho (aos nosso olhos) como eles encaram a vida! Aos olhos deles, somos ainda mais loucos! rs
Bjos e ótimo blog!