Noitadas peruanas 0
Nazca é um vilarejo de 20 mil habitantes isolado no Peru. Mundialmente famoso, claro, gracas às suas enigmaticas linhas. Uns, mais místicos, acreditam que os antigos habitantes pré-incas construíram tais formas animalescas que só podem ser vistas do céu como centro de pouso para alienígena. O mais provável é que foram mensagens e suplícios aos deuses, ou mesmo registros da vida cotidiana. Igual ao homem da caverna, mas no solo, para ser admirada do alto.
Pouco importa, sobrevoar as linhas num aeroplano e visitar seu cemitério de múmias faz de Nazca um dos atrativos chaves do Peru, apesar de ofuscado por Machu Picchu. Cheguei num domingo pela noite e, precipitadamente, confirmei fazer o passeio mediante o hotel em que me hospedei. Grande erro: paguei 60 dólares, ao invés dos 30 regularmente cobrados. Questionei meu guia, exigi desconto. Ele retrucou, “não se afobe, Eduardo. A Aninha, de 15 anos, que te apresentarei esta noite, será teu desconto”.
Achei melhor pular fora. Prostituição infantil nao é desvendar o mundo, é crime. O que não quer dizer que passaria a noite sem festa, naquela segunda-feira de verão peruano. Nazca à noite: nem as galinhas cocoricam. Silêncio absoluto. Todos os bares, fechados. Senti uma melancolia ao perceber o quanto aquele universo era calmo. O tempo parece não passar e as distâncias, curtas de alguns quarteirões. Incrível como a mais elementar das noções – a de tempo e espaço – varia tanto conforme a cultura local. Eu e minha amiga – a garrafa de Pisco (sagrada bebida reservada à aristocracia em épocas pré-colombianas. Atualmente, expostos em qualquer mercadinho) – circulamos a cidade inteira em busca de movimento. Em outras palavras, meia dúzia de ruelas. Até que avistei um certo movimento, no segundo andar de um prédio em ruínas e postulei: é pra lá que eu vou.
Cheguei na festa atacando o bufe de empanadas de frango (vingando-me das galinhas que não te deixam dormir a madrugada) antes de cumprimentar a anfitriã. Uma mulher grávida me acolhe amistosamente, alegando para me sentir em casa e degustar outras empanadas. Tratava-se de um chá-de-neném. Chá-de-neném na desolada Nazca duma segunda-feira…
Foram todos muito receptivos. Como sempre, a linda sensação de ser o estrangeiro, o convidado, e sentir o orgulho de um povo em compartilhar sua tradição contigo. O mundo nunca cessa de me impressionar.
Avisto uma menina solitária, sentada num sofá. Resolvo posar de Dom Juan, gastar meu espanhol e “sacar una chica para bailar”.
Obviamente, a fama de ser o viajante aventureiro, trangressor de fronteiras, constuma contar a favor como chame extra.
Ela aceita o convite sorridente. Dançamos e até a grávida nos congratula. Cada vez nos aproximando. Aprendo que a menina estuda fármacia em Arequipa e, estranhamente, conhecia mais franceses e italianos do que brasileiros. Longa a distância entre Brasil e Peru, não? Ou apenas desinteresse?
Chegam uns garotos, com mais garrafas de Pisco. Convidam-me para beber com eles e sigo. Pensei que a menina viria comigo, naturalmente. Ao invés, ela voltou a sentar-se sozinha. Então sou explicado: no Peru, ao convidar uma menina para dançar, é preciso dançar com a mesma a noite inteira. Caso ao contrário, ela se entristece. Bem diferente das noitadas do Rio de Janeiro, não?
Não se trata de convervadorismos ou hipocrisia. Lugares são simplesmente diferentes e, como viajante, nao se deve jamais julgá-los. Ao contrário, o essencial é entendê-los.
Aquela pequena festinha em Nazca permanece, em minhas lembranças, uma das grandes noitadas da minha vida. Até porque, a menina lembra de mim e somos bons amigos virtuais.
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Eduardo Cidade, 25, é jornalista e percorreu mais de trinta países. Atualmente se aventura pelas bandas da Índia, Tanzânia, Moçambique e outros lugares bizarros e desconhecidos na sua tentativa em tornar-se antropólogo. Sempre viajou regularmente desde a infância, bem turista-way-of-life, mas aos 20 foi morar sozinho na França durante oito meses. Não voltou o mesmo e desde então adora percorrer o mundo com mochila nas costas.













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