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Choque Cultural 0

O maior barato de viajar é o imprevisto. Não se sabe ao certo o que veremos. Afinal, temos algumas idéias dos atrativos principais de um país mediante fotos e informações que nem de longe são suficientes para refletir tudo o que nos aguarda. Sobretudo, as pessoas que conheceremos. É o famoso choque cultural. Ao passar a maior parte de sua vida convivendo numa específica comunidade, o homem tende a fazer generalizações do cunho “ninguém presta” ou “a natureza humana diz que isto é certo e aquilo, errado”. Não poderiam ser mais equivocadas, eis a origem de todo preconceito. Mas quem de nós nunca generalizou?

Lembro quando visitei o deserto do Saara, no Marrocos, pela primeira vez. Naquele dia, era o aniversário de Said, o motorista do táxi ligando os vilarejos de Rissani e Merzouga ao deserto. Chegamos no albergue, feito de blocos de barro com dromedários circulando sua volta. Encravado no Saara.

O guia para contemplar o crepúsculo chamava-se Mohamed, um jovem berbere de apenas dezessete anos. Durante as horas passadas em cima das dunas douradas, onde não importa para que lado se olha, a paisagem é composta de infindável areia, iniciei assunto com Mohamed. Relembrou que a fronteira com a Argélia fica há apenas 50 quilômetros de distância. Perguntei-lhe se já estivera lá e ele respondeu-me que, durante toda sua vida, nunca saiu do pequeno trecho ligando Rissani e Merzouga. Estudou até o Ensino Fundamental, pois começara a ajudar a família e não poderia mais ir, diariamente, à escola em Rissani. Impossível não ponderar, “o quê temos em comum senão o fato de, hoje, assistirmos este pôr-do-sol em pleno Saara?”.

O espetáculo vale o investimento financeiro. As dunas, de acordo com a luz solar, mudam de douradas para uma cor púrpura.

Na volta ao albergue, Mohamed tentou-me vender alguns artesanatos fabricados por seu pai, ofício em que ele começa a aprender. Não tinha dinheiro comigo, no entanto indaguei sobre um curioso objeto. Afirmou ser o fóssil de um animal pré-histórico, frisando “de alguns milhões de anos”. Sorri pela ingenuidade e sinceridade de sua resposta.

De noite, a fim de comemorar o aniversário de Said, o motorista, fomos até Merzouga comprar comes e bebes. Para conseguir cerveja e outras bebidas alcoólicas, meu guia e Said precisavam negociar em becos, como se tratasse de drogas ilegais. Um verdadeiro comércio contrabandista.

Entraram no carro outros convidados para regressarmos ao albergue, entre estes, mulheres cobertas em bourkas, deixando apenas os olhos à mostra. Estranhei a situação, vide em meus préconceitos, ser inconcebível imaginar tais mulheres numa festa.

Enquanto um rapaz preparava o tagine de carne e outro acendia o carvão para a chicha, as mulheres trocaram de vestimentas num quarto. Completamente ocidentalizadas, de cabelos soltos, calças jeans e blusas modernas. A transformação não limitou às roupas. Suas atitudes também. Fátima, a namorada de Said, de vinte e poucos anos, foi quem mais me chamou atenção. Ela não falava francês, os demais traduziam nossas palavras para possibilitar nossa comunicação. Fátima ria, fumava cigarros, bebia o álcool proibido pelo Alcorão, como se fosse uma Ocidental. Uma mulher totalmente diferente daquela que adentrou o carro minutos antes. Na hora de dançar, me chamou para ser seu par: o estrangeiro. Com o consentimento de Said, claro. Mostrou-me, então, suas raízes orientais, seus gestos suaves e delicados. Aquela notável dança não era um show pago para turistas em Marrakech, não era uma transmissão televisiva. Fátima não estava fantasiada de odalisca para agradar os estrangeiros, tampouco sua forma física condizia com nosso estereotipo ocidental. A beleza era, justamente, a naturalidade e a espontaneidade de seus movimentos.

Antes de dormir, em altas horas da madrugada, vale a pena conferir o imenso céu estrelado do deserto.

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Eduardo Cidade, 25, é jornalista e percorreu mais de trinta países. Atualmente se aventura pelas bandas da Índia, Tanzânia, Moçambique e outros lugares bizarros e desconhecidos na sua tentativa em tornar-se antropólogo. Sempre viajou regularmente desde a infância, bem turista-way-of-life, mas aos 20 foi morar sozinho na França durante oito meses. Não voltou o mesmo e desde então adora percorrer o mundo com mochila nas costas.

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